Babel, de R. F. Kuang, chamou-me a atenção sobretudo por uma razão muito simples: coloca a tradução no centro da história. Não como mero detalhe académico, mas como conhecimento, instrumento de poder e até como base do próprio sistema de magia.
Foi esse ponto de partida que me levou ao livro. E acabou por ser também aquilo que mais me interessou ao longo da leitura.
É um livro extenso e, por vezes, exigente. Houve momentos em que achei que se demorava mais do que precisava em algumas ideias e nem tudo me convenceu da mesma forma. Mas é também um daqueles livros que continuaram comigo quando não estava a ler. Queria saber o que aconteceria a seguir e, sobretudo, fiquei a pensar em muitas das questões que levanta.
Babel e o poder das palavras
A história começa em 1828 e acompanha Robin Swift, um rapaz órfão em Cantão que é levado para Inglaterra pelo misterioso Professor Lovell. Depois de anos dedicados ao estudo de línguas, Robin chega a Oxford para estudar no Royal Institute of Translation, conhecido simplesmente como Babel.
É aí que as línguas deixam de ser apenas objeto de estudo.
No universo criado por R. F. Kuang, a magia assenta em barras de prata e naquilo que acontece quando traduzimos. Duas palavras de línguas diferentes podem aproximar-se muito no significado, mas raramente são equivalentes em tudo. Há sempre qualquer coisa que fica pelo caminho. Uma nuance, uma associação, uma diferença cultural.
É nesse espaço entre uma palavra e a sua tradução que a prata funciona.
“We’re here to make magic with words”
É uma ideia de fantasia, claro, mas parte de algo muito real. Traduzir nunca foi simplesmente substituir palavras de uma língua por palavras de outra.
“That’s just what translation is, I think. That’s all speaking is. Listening to the other and trying to see past your own biases to glimpse what they’re trying to say. Showing yourself to the world, and hoping someone else understands.”
Para quem trabalha com línguas, há muito para reconhecer aqui.
Muito mais do que dark academia
Babel tem muitos dos elementos que associamos à dark academia: Oxford, edifícios históricos, bibliotecas, estudantes brilhantes, sociedades secretas, conhecimento, rivalidades e uma atmosfera que se vai tornando progressivamente mais sombria.
Gostei de tudo isso. Gostei das relações entre as personagens, em particular da dinâmica entre Robin e Ramy, e gostei de acompanhar a descoberta de Babel e, mais tarde, daquilo que existe para além da imagem quase perfeita da instituição. Mas o ambiente académico é apenas uma parte do livro.
R. F. Kuang usa Babel para falar do Império Britânico, do colonialismo, do racismo e da exploração. E coloca as línguas e a tradução no centro desse sistema.
Babel forma tradutores, mas o conhecimento produzido ali não é neutro. Serve interesses políticos e económicos. As línguas tornam-se instrumentos de poder e o trabalho dos tradutores ajuda a sustentar o próprio império.
Robin encontra-se, por isso, numa posição cada vez mais difícil. Babel deu-lhe educação, segurança e acesso a um mundo privilegiado. Ao mesmo tempo, começa a perceber de onde vem esse privilégio e aquilo que se espera que faça com o conhecimento que adquiriu.
É possível beneficiar de um sistema e, ao mesmo tempo, tentar mudá-lo por dentro? Em que momento deixamos de estar a tentar mudá-lo e passamos simplesmente a contribuir para a sua manutenção?
Uma língua feita de outras línguas
Há também uma dimensão de Babel que me interessou particularmente: a atenção dada às palavras, às suas origens e à forma como as línguas se constroem através do contacto com outras línguas.
O inglês é um excelente terreno para explorar isso.
“English did not just borrow words from other languages; it was stuffed to the brim with foreign influences, a Frankenstein vernacular. And Robin found it incredible, how this country, whose citizens prided themselves so much on being better than the rest of the world, could not make it through an afternoon tea without borrowed goods.”
As palavras viajam. São apropriadas, adaptadas e transformadas. Algumas mudam de significado. Outras ficam tão integradas numa língua que deixamos de pensar de onde vieram.
Em Babel, estas questões não aparecem apenas como curiosidades etimológicas. Estão diretamente ligadas à história, à circulação de conhecimento e às relações de poder entre povos.
E é aqui que, para mim, o sistema de magia do livro funciona melhor. A diferença entre duas palavras, aquilo que uma consegue dizer e a outra não consegue reproduzir exatamente, deixa de ser apenas um problema de tradução. Torna-se uma fonte de poder.
Gostei, mas não achei o livro perfeito
O início agarrou-me rapidamente e a premissa é excelente. Apesar do tamanho e da aparência algo intimidante, achei a escrita bastante fluida. R. F. Kuang não tenta reproduzir artificialmente a linguagem do século XIX, o que torna a leitura muito mais acessível.
A componente fantástica também não domina a história. Não é preciso memorizar dezenas de regras ou compreender um universo inteiro antes de conseguirmos acompanhar o que está a acontecer. Ainda assim, houve momentos em que senti que a narrativa se arrastava.
Algumas partes são bastante densas e, apesar de ter gostado muito do conceito das barras de prata, nem sempre achei que a explicação do seu funcionamento fosse tão clara quanto poderia ser.
O final também não me deu completamente a sensação de encerramento que esperava. Percebo a opção narrativa e acho que faz sentido dentro dos temas que o livro trabalha, mas não fiquei totalmente satisfeita.
Curiosamente, isso não me fez perder o interesse. Mesmo nas partes mais lentas, dava por mim a pensar no livro quando não estava a ler e a querer voltar para perceber o que aconteceria a seguir. Para um livro desta dimensão, isso conta bastante.
Ler Babel no original: que nível de inglês é necessário?
Li Babel no original, em inglês, e não seria o livro que recomendaria a alguém que está a começar a aventurar-se na leitura em inglês.
Na minha perspetiva, é uma leitura para C1. Um leitor com B2 também poderá lê-lo, mas deverá contar com algum esforço adicional, sobretudo se ainda não estiver habituado a livros extensos ou a textos com vocabulário histórico, académico e linguístico.
A dificuldade não está propriamente numa escrita excessivamente complicada. Pelo contrário, achei a prosa de Kuang bastante legível. O desafio vem da combinação de vários fatores: a extensão do livro, o contexto histórico, as discussões sobre tradução e etimologia e algum vocabulário menos frequente.
“That’s the beauty of learning a new language. It should feel like an enormous undertaking. It ought to intimidate you. It makes you appreciate the complexity of the ones you know already.”
Aprender outra língua também é descobrir que coisas aparentemente simples deixam de o ser assim que tentamos explicá-las, traduzi-las ou encontrar um equivalente exato.
Leitura imersiva: ler Babel com o audiobook
No meu caso, li Babel através de leitura imersiva: fui lendo o livro e ouvindo o audiobook em simultâneo.
É uma estratégia que utilizo em determinadas leituras porque me ajuda a manter a concentração, sobretudo quando estou perante um livro muito extenso ou uma narrativa que exige mais atenção.
Em Babel, funcionou particularmente bem.
Há ainda uma vantagem interessante para quem está a ler numa língua que não é a sua língua materna. O vocabulário chega por duas vias ao mesmo tempo. Vemos a palavra escrita e ouvimos a sua pronúncia no momento em que aparece.
Isto pode ser especialmente útil num livro como este, com palavras menos habituais, referências históricas e muito vocabulário relacionado com línguas, tradução e contexto académico.
Para alguém com B2 ou C1 que queira ler Babel no original mas receie a extensão ou a dificuldade do vocabulário, experimentar a combinação entre livro e audiobook pode tornar a leitura mais fácil de acompanhar.
Não significa que o livro se torne linguisticamente mais simples. O texto continua a ser exatamente o mesmo. Mas pode ajudar a manter o ritmo, a concentração e o contacto simultâneo com a forma escrita e sonora das palavras.
Um livro sobre palavras que acaba por falar de muito mais
Babel não foi uma leitura perfeita para mim. Houve partes que teria encurtado, explicações que gostaria que fossem mais claras e um final que me deixou a querer um pouco mais.
Mas gostei muito do que R. F. Kuang decidiu fazer com as línguas e com a tradução.
A partir delas, construiu não apenas um sistema de magia, mas uma história sobre quem produz conhecimento, quem beneficia dele e quem tem o poder de decidir como esse conhecimento é utilizado.
Colonialismo, racismo, identidade, privilégio, resistência e pertença acabam todos por passar pelas palavras.
Num livro em que as palavras conseguem literalmente produzir magia, talvez a ideia mais interessante seja perceber que, fora da ficção, também nunca foram completamente inocentes.
“We’re here to make magic with words”

