Chocolat: Doçura e Rebeldia de Joanne Harris

chocolat by joanne harris

Há livros que guardam dentro das suas páginas o compasso exato de uma estação. Voltei a ler Chocolat, de Joanne Harris, e escolhi a Páscoa para este reencontro. Haverá melhor momento que a altura em que se passa a própria narrativa? O contraste entre a solenidade da Quaresma e a alegria pagã de um festival de chocolate ganha uma vida nova nestes dias.

Lançado originalmente em inglês em março de 1999 e chegado a Portugal em abril de 2000, este romance intemporal marcou uma geração. Depois de o ter lido em português e de me ter deixado embalar várias vezes pela adaptação cinematográfica de dezembro de 2000, decidi que era o momento de mergulhar no texto original em inglês. A experiência revelou-se uma verdadeira viagem através dos sentidos, abrindo a porta para histórias inesquecíveis.

A Magia de Lansquenet-sur-Tannes

Na pequena e pacata aldeia de Lansquenet, onde nada parece ter mudado num século, a chegada da bela Vianne Rocher e da sua requintada loja de chocolates vem perturbar a ordem estabelecida. Vianne traz consigo mais do que doces; cada caixa de bombons esconde o dom da sua perceção invulgar sobre os descontentamentos privados de quem a visita e a cura atenciosa para cada um deles. Será ela uma bruxa? Aos poucos, a paróquia abandona a sua resistência e rende-se à tentação e à felicidade.

A obra de Joanne Harris ilumina a atmosfera do sul de França, lembrando-nos a mestria de Peter Mayle, mas tecida com o realismo mágico inconfundível de Laura Esquivel. É a demonstração perfeita da luta de uma mulher e do seu empenho em provar que nem tudo o que nos rodeia é mau. Se procurarmos bem, há muito de bom à nossa espera. A sua vida, outrora levada de um lado para o outro pelo vento, encontra nesta aldeia onde a igreja dita todas as regras um porto de abrigo que ela mesma terá de conquistar.

Como Vianne tão bem expressa num dos meus momentos favoritos da obra:

“I sell dreams, small comforts, sweet harmless temptations to bring down a multitude of saints crash-crash-crashing among the hazels and nougatines.”

Uma Escrita que Alimenta a Alma e o Intelecto

Joanne Harris é uma escritora sem igual. As suas descrições conseguem transportar qualquer pessoa, até a mais esquiva ao mundo da leitura, prendendo-a irremediavelmente. Cada página oferece uma descrição capaz de derreter na boca de chocólatras, francófilos e amantes de paixão por todo o mundo. Desafio qualquer pessoa a ler este romance e a não sentir uma fome imensa de algo doce.

Para quem procura aliar o prazer literário ao desenvolvimento pessoal, Chocolat é amplamente recomendado para estudantes de inglês de nível B2 (Upper Intermediate). A narrativa combina uma linguagem descritiva e sensorial com uma história envolvente, que se mantém acessível sem nunca parecer simplificada. É o equilíbrio perfeito para enriquecer o vocabulário enquanto se navega por sentimentos profundos.

As palavras da autora ressoam muito para além do final do livro, recordando-nos a essência da liberdade e da vivência plena:

“I could do with a bit more excess. From now on I’m going to be immoderate… and volatile… I shall enjoy loud music and lurid poetry. I shall be rampant.”

Esta é uma história forte, comovente e deliciosamente divertida. É um conto maravilhoso sobre família, magia e esperança, longe de ser um romance típico. Ensina-nos a abraçar a existência na sua totalidade, tal como a sabedoria partilhada nas suas páginas: “Life is what you celebrate. All of it. Even its end.”

Espero que mais leitores se aventurem com Joanne Harris. Porque, no fundo, a grande lição que retiramos de Lansquenet é a de que a alegria é o nosso bem mais precioso:

“I believe that being happy is the only important thing. Happiness. Simple as a glass of chocolate or torturous as the heart. Bitter. Sweet. Alive.”

chocolat by joanne harris