“O português é uma língua muito difícil de aprender.”
É uma frase que ouvimos com frequência. E quase nunca fica por aí. Normalmente vem acompanhada de uma explicação:
“Porque a mesma palavra pode querer dizer coisas completamente diferentes.”
É verdade. Pode.
Em português, uma palavra como “canto” pode levar-nos para uma divisão de uma casa ou para o verbo cantar. E não faltam outros exemplos de palavras cujo significado só conseguimos perceber através do contexto.
Mas será isso uma característica particularmente complicada do português?
Basta olhar para outra língua para perceber que não.
Spring não é apenas primavera
Quem começa a aprender inglês provavelmente encontra bastante cedo a palavra spring associada à primavera.
Mas spring também pode ser uma mola.
Pode ser uma nascente de água.
E o verbo to spring pode transmitir a ideia de saltar ou lançar-se subitamente.
A palavra continua a escrever-se da mesma maneira. O significado muda.
E spring está longe de ser um caso isolado.
Date pode ser uma data do calendário, um encontro romântico ou uma tâmara.
Match pode ser um fósforo, uma partida desportiva ou algo que combina ou corresponde a outra coisa.
Bank pode ser a instituição onde temos uma conta bancária, mas também a margem de um rio. Como verbo, pode ainda descrever, por exemplo, o movimento de inclinação de um avião.
Light pode ser luz, algo leve, algo claro ou o ato de acender.
Ring pode ser um anel, um círculo, um ringue de boxe ou o som de um telefone. E também pode funcionar como verbo.
De repente, aquilo que parecia uma peculiaridade do português começa a parecer bastante mais familiar.
Então estas palavras querem mesmo dizer muitas coisas diferentes?
Sim, embora linguisticamente a explicação possa ser um pouco mais complexa.
Quando usamos a expressão “uma palavra com vários significados” numa conversa informal, estamos a juntar fenómenos que nem sempre são exatamente iguais. Em alguns casos, os vários sentidos de uma palavra estão relacionados entre si; noutros, palavras com origens ou significados diferentes acabaram por ter a mesma forma.
Podemos falar, por exemplo, de polissemia e de homonímia.
Para quem está a aprender uma língua, porém, a consequência prática é semelhante: não basta reconhecer a palavra. É preciso interpretar o contexto.
E isso faz parte da aprendizagem de qualquer língua.
O contexto também se aprende
Quando dominamos a nossa língua materna, fazemos grande parte deste trabalho quase sem perceber.
Se alguém disser:
“Está no canto da sala.”
dificilmente pensamos em música.
Da mesma forma, um falante de inglês que ouve:
“I went to the bank”
não começa necessariamente a percorrer mentalmente todos os significados possíveis de bank. O resto da frase, a situação e o conhecimento que já possui da língua ajudam-no a interpretar a palavra.
Para quem está a aprender, esse processo ainda não é tão automático.
É por isso que aprender vocabulário não consiste apenas em decorar equivalências do género: spring = primavera
À medida que avançamos numa língua, começamos também a aprender os diferentes significados, as combinações mais frequentes, as expressões e os contextos em que cada palavra aparece.
Pouco a pouco, aquilo que inicialmente precisava de ser pensado começa também a tornar-se natural.
Afinal, o português é difícil ou não?
A intenção desta série não é provar que o português é fácil.
Também não é decidir se o inglês, o português, o mandarim, o francês ou qualquer outra língua é “mais difícil”.
A dificuldade de aprender uma língua não existe no vazio. Depende, entre outras coisas, da língua ou línguas que já falamos, das semelhanças que encontramos entre elas, dos sons e estruturas que já conhecemos, da exposição que temos à nova língua e da nossa própria experiência de aprendizagem.
Um aspeto do português que parece perfeitamente natural a quem sempre falou português pode ser novo para outro aprendente. E também acontece o contrário.
É precisamente por isso que me interessa olhar com mais atenção para algumas das frases que repetimos quando dizemos:
“O português é muito difícil porque…”
Neste primeiro caso, porque uma palavra pode ter vários significados?
Sim. Mas o português não está sozinho.
