Entre tons, caracteres, erros e tentativas, algumas coisas que continuo a aprender sobre aprendizagem.
Aprender línguas sempre fez parte da minha vida. Algumas acompanharam-me durante anos, outras foram experiências mais breves. Além das línguas europeias que fui estudando ao longo do tempo, tive também aulas de árabe, japonês e chinês e fiz uma pequena incursão pelo ucraniano.
Agora voltei ao mandarim. Ter muitos alunos na China dá-me uma motivação adicional, naturalmente, mas a curiosidade vem de muito antes. Sempre me interessaram os sons, as estruturas, os diferentes sistemas de escrita e tudo aquilo que vamos descobrindo sobre a relação entre língua e cultura quando começamos a aproximar-nos da sua língua.
Desta vez, há também uma experiência que valorizo de outra forma: voltar ao lugar de quem está a começar e perceber, na prática, quanto trabalho existe por trás de coisas que mais tarde fazemos quase sem pensar.
Os tons são provavelmente o melhor exemplo. Neste momento, são uma das minhas maiores dificuldades. Quando os ouço em sequência e sei que estou a trabalhar especificamente as diferenças entre eles, começo a reconhecê-los e chego a pensar que finalmente estou a perceber. Depois muda a voz, ouço outra pessoa ou o mesmo som aparece integrado numa palavra e volto a ter muita dificuldade em distinguir o que estou a ouvir.
É frustrante, sobretudo quando já repeti o mesmo exercício muitas vezes e sinto que devia conseguir fazer melhor. Nessas alturas, volto atrás, procuro outros vídeos, ouço outras pessoas e tento habituar o ouvido a vozes diferentes. Já regressei ao início inúmeras vezes e continuo a fazê-lo sempre que é necessário. Quando a impaciência começa a aparecer, lembro-me conscientemente de que estou no início e de que nenhuma língua se aprende de um dia para o outro, muito menos uma tão distante das que já conheço.
Com os caracteres, a dificuldade é diferente. A memorização nunca foi uma área particularmente fácil para mim e um novo sistema de escrita obriga-me a trabalhar precisamente isso. Há caracteres que reconheço num dia e que parecem ter desaparecido da memória quando volto a encontrá-los mais tarde. Também aí tenho de aceitar a repetição e dar tempo ao processo.
É talvez uma das coisas mais importantes que continuar a aprender me recorda: a aprendizagem exige paciência e uma boa dose de resistência à frustração. Há momentos em que percebemos rapidamente e outros em que precisamos de voltar à mesma coisa muitas vezes. O progresso nem sempre é tão evidente como gostaríamos e avançar mais depressa nem sempre significa aprender melhor.
A minha experiência enquanto professora e formadora ajuda-me a lidar com estas dificuldades. Conheço estratégias de aprendizagem, sei procurar recursos e procuro apoiar as minhas escolhas naquilo que conheço da prática pedagógica e da investigação. Depois tenho de descobrir o que funciona comigo e com aquilo que estou a tentar aprender naquele momento.
Se uma estratégia não resultar à primeira, não a abandono imediatamente. Uma primeira experiência pode ser difícil simplesmente porque é nova. Volto a experimentar e, se continuar a não funcionar, procuro adaptá-la. Por vezes deixo-a de lado e regresso mais tarde, porque aquilo que não resulta hoje pode fazer sentido daqui a algumas semanas ou quando estiver noutra fase da aprendizagem. Se, depois de várias tentativas, continuar sem me ajudar, procuro outra abordagem. Há muitas formas de aprender e não tenho qualquer necessidade de obrigar todas a funcionar comigo.
Para estudar mandarim, acabei assim por reunir diferentes recursos: aplicações, livros de aprendizagem para iniciantes, aulas online, vídeos, desenhos animados, pequenas histórias e materiais bilingues. Alguns foram-me sugeridos; outros procurei-os deliberadamente porque correspondem a estratégias que conheço e que considero úteis. Vou experimentando, adaptando e selecionando.
A diferença entre aprender uma língua hoje e fazê-lo há algumas décadas é enorme. Quando comecei a aprender línguas, as oportunidades de contacto com elas eram muito mais limitadas. Aproveitava as letras das músicas, prestava atenção aos filmes legendados que passavam na televisão e lia praticamente tudo o que aparecia em inglês nos livros da escola. Mais tarde vieram algumas revistas em inglês. Era o que havia ao meu alcance.
Hoje posso ouvir várias pessoas a pronunciar a mesma palavra, repetir um áudio quantas vezes precisar, ter uma aula online, procurar uma explicação alternativa, recorrer a uma aplicação ou encontrar materiais adaptados ao meu nível em poucos minutos. Tenho muito mais escolha e consigo selecionar melhor aquilo que pode ajudar-me.
O processo, porém, continua a exigir tempo, atenção, prática, repetição e erro. Posso ter excelentes ferramentas à disposição e saber bastante sobre aprendizagem, mas continuo a precisar de fazer o trabalho de aprender.
Quando os papéis se trocam um pouco
Há momentos nas minhas próprias aulas em que esta experiência entra de forma muito natural.
Com alguns dos meus alunos chineses, quando quero confirmar se compreenderam realmente determinada palavra em inglês, pergunto-lhes como se diz em chinês. Um simples yes nem sempre me permite perceber se o significado ficou claro, sobretudo quando o aluno ainda não tem vocabulário suficiente em inglês para me explicar a palavra.
Nesses momentos, são eles que me ensinam. Dizem a palavra em chinês e eu tento repeti-la. Raramente acerto à primeira e eles voltam a dizer até eu me aproximar da pronúncia correta. No final, agradeço-lhes e digo-lhes que é difícil para mim.
Gosto particularmente desses momentos porque o erro aparece na aula de uma forma completamente natural. Os alunos veem a professora tentar, falhar e voltar a tentar. Espero que isso também lhes mostre que não há qualquer problema em precisar de várias tentativas quando estamos a aprender.
A aproximação à língua e à cultura acontece ainda em pequenas situações do quotidiano. Às vezes compro alimentos num supermercado chinês e tento perceber alguma coisa dos rótulos, reconheço um carácter que já encontrei ou descubro produtos e sabores que não conhecia. São pequenos contactos, mas vão tornando familiar aquilo que antes me era completamente estranho.
Continuar do lado de quem aprende
Depois de muitos anos a ensinar, há muita coisa em inglês que faço automaticamente. É fácil esquecer a distância que existe entre aquilo que já dominamos e a experiência de alguém que está a encontrar determinado conteúdo pela primeira vez.
O mandarim coloca-me regularmente do outro lado dessa distância. Posso compreender perfeitamente uma explicação e continuar sem conseguir aplicar aquilo que percebi. Posso estudar algo várias vezes e voltar a esquecer. Posso saber que estou a ouvir dois tons diferentes e, ainda assim, não conseguir distingui-los.
Isso acompanha-me quando ensino. Lembra-me de que uma explicação muito clara para mim pode ainda não ser suficiente para o aluno, de que repetir uma dificuldade não significa falta de esforço e de que um progresso aparentemente pequeno pode ter exigido muito trabalho.
Também sei, pela minha própria experiência enquanto aprendiz de línguas, que as dificuldades que temos numa determinada fase dizem muito pouco sobre aquilo que poderemos vir a conseguir mais tarde. Talvez por isso tenha tanto cuidado com rótulos como “mau a inglês” ou “mau a línguas”. Há pessoas que precisam de mais tempo, estratégias diferentes ou simplesmente mais oportunidades para praticar. Os objetivos também não têm de ser iguais para todos, nem a perfeição é condição para que uma língua nos seja útil.
Quando alguma coisa parece particularmente difícil, peço aos meus alunos que tenham paciência, que continuem a tentar, que aceitem que vão errar e que deem tempo à aprendizagem. Peço-lhes, sobretudo, que não confundam “ainda não consigo” com “não consigo”.
Agora, quando volto a ouvir um tom que ainda não distingo ou encontro um carácter que tinha a certeza de já conhecer, tenho de aplicar a mim própria exatamente o mesmo princípio.
Continuar a aprender mantém-me curiosa, obriga-me a sair regularmente daquilo que já domino e recorda-me como se sente a aprendizagem do outro lado. E talvez seja essa uma das razões pelas quais, mesmo depois de tantos anos a ensinar, continuo a querer ocupar também o lugar de aluna.

